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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

(4) - Bucky, sinergética e a abundância


Houveram muitos grandes homens no final do século XIX e ao longo do século XX que, se suas teorias tivessem sido levadas a sério, poderíamos ter dado saltos evolutivos na ciência, quebrado paradigmas e alterado significantemente a forma como vivemos, produzimos e consumimos hoje. Abordaremos superficialmente alguns deles ao longo dos próximos artigos desta série.

Ao entrar em contato com suas biografias, suas teorias, seus trabalhos, suas filosofias e até mesmo nos mitos ao seu respeito, um novo mundo de possibilidades infinitas se abre. É uma inspiração enorme olhar para o trabalho destes homens, e mesmo um olhar superficial ainda é capaz de fornecer muitos insights...

O primeiro que tive contato foi um indivíduo chamado Buckminster Fuller. Muito conhecido por sua influência na arquitetura, com a “invenção” da estrutura do domo geodésico. Bucky, como também é carinhosamente chamado, era antes de tudo um filósofo prático, mas também se destacou como inventor, designer e escritor. 


Apesar de ter sido expulso duas vezes da universidade de Harvard e não ter concluído sua graduação, posteriormente ganhou 47 doutorados honoris causa nas áreas de Artes, Ciências da Natureza, Engenharia e Ciências Humanas. Interessante comentar que ele dizia que preferia “pensar por si mesmo” a engolir o que era ensinado nas escolas...

Após a morte de sua filha, nos anos 30, quase se suicidou, mas optou por fazer da sua vida uma experiência: queria saber o quanto um indivíduo pode contribuir para a humanidade. Desde então dedicou-se a pensar e realizar.

Há muito que falar sobre Fuller. Se repararmos em seu trabalho, veremos que há uma clara e consistente filosofia por trás de tudo o que ele fez ou disse. Em primeiro lugar, estava consciente, muito antes de isto ser tão difundido como é hoje, que vivemos num ambiente finito, que ele chamou de “Espaçonave Terra”, e que deveríamos administrar nossos recursos de forma a tornar a sobrevivência da “tripulação” possível, de forma sustentável. Definindo riqueza em termos de conhecimento, “habilidade tecnológica de proteger, nutrir, cuidar e acomodar todas as crescentes necessidades da vida”, Fuller percebeu que, já nos anos 70, a humanidade havia chegado a um ponto sem precedentes de desenvolvimento que, com a tecnologia e o conhecimento disponível e a quantidade de recursos naturais já extraídos, havia a possibilidade de resolver todos os problemas da humanidade como um todo: “O egoísmo é desnecessário e como tal irracionalizável... A guerra está obsoleta”. Fuller se preocupou com a questão da sustentabilidade muito antes de muitos outros, mas tinha uma visão otimista acerca do futuro da humanidade.

Em seu livro “Utopia or Oblivion”, Fuller inclusive apresenta resultados e cálculos que mostram como seria uma sociedade que levasse a sério a promessa da tecnologia que comentamos no primeiro artigo desta série, sobre a humanidade se livrar do trabalho enfadonho. Segundo este livro, as pessoas contribuiriam com trabalho árduo até uns trinta anos, período após o qual estariam livres para contribuir de forma mais criativa, como filósofo, inventor ou artista.

Fuller via que o homem, até então vinha competindo por recursos, mas que agora não mais era necessário, que a colaboração era a chave para a sobrevivência. Bastava administrar sabiamente os recursos naturais mundiais. E esta administração, segundo ele, viria de uma ciência capaz de antecipar os problemas da humanidade e usar nossa capacidade racional, criativa e tecnológica para ter as soluções a tempo, que ele chamava de “Comprehensive Antecipatory Design Science”.

A revolução através da engenharia, “Design Science Revolution”, levaria em conta o princípio da efemeralização (ephemeralization), que constituía em perder-se mais tempo e “quebrar mais a cabeça” na etapa de projeto, e cada vez conseguir fazer mais com menos. Muito desse insight de Fuller acabou realmente ocorrendo, e hoje fazemos de fato mais com menos, tecnologia mais poderosa, menor e mais barata, e este princípio mostrou-se uma tendência natural da evolução tecnológica, mas isso não ocorreu seguindo a filosofia de Fuller. Hoje a tecnologia evolui tão rápido que os produtos são fabricados com obsolescência programada somente para rodar a roda do capitalismo e manter o lucro. Na visão de Bucky, esta efemeralização deveria ser com o objetivo primário de se economizar os recursos naturais e energia, buscando a máxima eficiência e sustentabilidade em todo o processo e todo o ciclo de vida de um produto, que, segundo sua filosofia, deveria ser de vinte e cinco anos (algo bem razoável para a época) inclusive para que as gerações pudessem se adaptar harmoniosamente às mudanças. Fuller não concordaria com a quantidade de desperdício do sistema capitalista, que só fez aumentar desde sua época. Bucky foi um dos primeiros a preconizar um mundo de energia renovável e limpa, e, sobre a questão petrolífera, citava François de Chardenedes de que sob o ponto de vista de custo de reposição do nosso “orçamento energético natural” [1], o petróleo custava à Natureza 300 mil dólares por litro, e seu uso como combustível para transporte representava um grande prejuízo, ou seja, uma despesa maior que a receita em termos energéticos naturais. [2] “Não há uma crise energética, há uma crise de ignorância”, dizia.

O principal sobre Bucky era que, embora fosse bem voltado para a tecnologia, a manufatura, a engenharia, etc, era um exímio observador da Natureza. A Natureza aparece, desde o início da sua carreira, como a grande mestra onde o Homem deve se inspirar. Neste sentido, Fuller segue o caminho já iniciado pelos antigos gregos, na escola pitagórica e platônica, nas quais a geometria é o princípio de tudo. Os conceitos geométricos estudados por Fuller têm sobrevivido ao seu criador de forma inesperada: a estrutura biológica dos vírus, dos quasi-cristais e dos fulerenos [3], que inclusive foram nomeados em sua homenagem, demonstram bem que Bucky soube interpretar os fundamentos geométricos da natureza, para além do que talvez ele mesmo pudesse predizer.

E na essência sobre a qual toda esta “geometria do pensamento” (como ele mesmo dizia) de Bucky se assenta está o conceito de sinergética (synergetics), que Bucky instituiu muito antes que a palavra sinergia fosse popular. Podemos dizer que sinergética é “o estudo de sistemas inteiros em transformação com a ênfase em que o comportamento do sistema como um todo é imprevisível pelo comportamento de suas partes”. Por exemplo, na estrutura do domo geodésico, a estrutura como um todo é muito mais forte, mais resiliente, mais leve, mais estável, do que se poderia achar a princípio analisando o material de que é feita. Particularmente, tive um tremendo de um insight quando estudando sobre Fuller, e na minha humilde opinião este é mais do que um conceito técnico-científico ou até mesmo filosófico, é um princípio metafísico do universo. “A Natureza sempre busca a forma mais eficiente”, dizia.

“O eternamente regenerativo Universo é sinergético. Os Humanos foram incluídos neste projeto cósmico como coletores-de-informação e resolvedores-de-problemas locais para ajudar a integridade do sistema auto-regenerativo eterno 100-por-cento-eficiente do Universo. Para ajudar na sua função cósmica os humanos receberam suas mentes com a qual poderiam descobrir e aplicar as leis gerais que governam todos as omniinteracomodativas, incessantes intertransformações físicas e metafísicas do Universo.”

Assim era Fuller, inventava suas próprias palavras, e, como os outros grandes homens que vamos abordar aqui, percebiam que o homem avançaria mais aprendendo com a Natureza, sendo parte da mesma, e não sobre ela, apartando-se da mesma. O homem deveria aprender com o intuito de trabalhar com a Natureza, e não contra ela [4], e que a minuciosa observação era necessária para que se chegasse aos princípios primários, que regem todos os fenômenos, para que se compreenda profundamente como ela funciona e possamos imitá-la em sua perfeição nas nossas realizações.

A sinergética de Fuller me fez refletir sobre a entropia... Afinal, se todas as atividades humanas são entrópicas, será que a Natureza é mesmo entrópica? Ou será que é 100% eficiente e auto-regenerativa, como diz Fuller? E se, através da sinergética natural, consegue ser 100% auto-regenerativa, não implicaria a sinergética a existência de uma espécie de entropia negativa, ou negentropia, um vetor oposto a entropia, que se encarregaria de fechar o ciclo, de tornar reversível os processos entrópicos? Não seria essa entropia negativa o vetor no qual poderíamos desenvolver nossa tecnologia, ao invés do entrópico? [5] Viemos, ao longo do último século, aprendendo alguns princípios físicos, mas, se olharmos mais atenta e profundamente, vencemos a Natureza mecanicamente pela força bruta, e talvez haja ainda muitos princípios mais profundos e mais holísticos a serem descobertos, princípios estes que nos dariam a sabedoria de trabalhar a favor da Natureza, aumentando sua auto-regeneratividade, quem sabe, para além dos 100% (se é que Ela não ultrapassa este limite por si só). Afinal, geometrizando o nosso pensamento, se a simetria é um princípio universal, como haveria a Natureza de se mover ao longo de um único sentido, o entrópico? Como explicar, dessa maneira, a criação de um Universo tão ordenado e sistêmico, os ecossistemas e a complexidade das formas de vida, se a única tendência fosse ao caos e à desordem?

De fato, a filosofia de Fuller pode nos tirar do pessimismo e da depressão, inaugurando aqui no nosso espaço as primeiras linhas gerais do Paradigma da Abundância, em contraposição ao Paradigma da Escassez de Roegen-Malthus comentado no artigo anterior.


Notas:
[1] essencialmente a “receita” energética solar. Toda a energia da terra vem do sol. Se a extraímos na forma de potencial hídrico, represando as águas, se a extraímos através do vento, ou se a extraímos em forma de combustíveis fósseis, em última instância estamos extraindo energia solar que foi absorvida pela terra.
[2] O petróleo nada mais é do que energia solar acumulada absorvida por processos orgânicos e acumulada como fóssil ao longo de bilhões de anos, segundo a teoria mais aceita. Há um cenário ainda pior, o da teoria de Gold, de que todo o petróleo teria se depositado quando a terra esfriou. Uma terceira teoria diz que o mesmo é constantemente criado, mas não há provas disso. De qualquer forma, excluindo-se a última teoria, gastar a energia acumulada em bilhões de anos em alguns minutos, é uma loucura. Se energia fosse literalmente “dinheiro” (o que de fato, conforme a teoria que desenvolveremos, o é), nenhum ser humano em sã consciência faria isso.
[3] a terceira forma alotrópica do carbono puro, para além do diamante e da grafite, excluindo o carvão, que é amorfo
[4] Esta postura de querer vencer a natureza, dominá-la é a atitude Baconiana enraizada no patriarcalismo bíblico. Desde a antiguidade, os objetivos da ciência tinham sido a sabedoria, a compreensão da ordem natural e a vida em harmonia com ela, “para a glória maior de Deus”, “para fluir na corrente do Tao” como diriam os chineses, ou seja, uma atitude integrativa, feminina, yin, ecológica. Desde o século XVII, quando Francis Bacon descreveu o método empírico da ciência, esta atitude passou de feminina, integrativa, a uma atitude masculina, auto-afirmativa, yang, onde a ciência passou a ser o conhecimento que pode ser usado para dominar a natureza, e hoje ciência e tecnologia buscam sobretudo fins profundamente antiecológicos. O conceito da Terra como mãe nutriente desaparece nos escritos de Bacon, e a revolução científica tratou de substituí-la pela metáfora do mundo como máquina, idéia consolidada posteriormente com Newton e Descartes. Provavelmente influenciado pelos julgamentos das bruxas pela igreja católica, frequentes naqueles tempos, Bacon era da opinião que a natureza, tinha que ser “acossada em seus descaminhos”, “obrigada a servir” e “escravizada”. Devia ser, “reduzida à obediência”, e o objetivo do cientista era “extrair da natureza, sob tortura, todos os seus segredos”.
[5] Embora, enquanto estava apenas superficialmente analisando a filosofia de Fuller, a negentropia não passou de um insight, posterioirmente, através de outras leituras, encontramos uma refrência que nos comprovou que Fuller realmente reconhecia o princípio negentrópico e o chamava de sintropia. Fuller, R. Buckminster "Cosmography", page 51. Macmillan Publishing Company, 1992

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